pensamentos...

certo horror a andar descalça
essa coisa de ter os pés no chão
melhor que antes da cabeça
ombros & estômago
a gente comece pelo coração
e pela buceta também
que é gostoso demais
molhar 
mergulhar
fumo debruçada na varanda. tenho barriga cabeça coração
cheios. te vejo passar na rua debaixo.
opto pelo silêncio. tenho vivido um caso de amor pelo manifesto,
mas manuela não cala a boca. saio para ver uns amigos
à noite. topo com você pela rua. penso: não digo. dedinho do pé na quina.
despisto o grito e me despeço da raiva. mero truque.
finjo que foi por acaso.

segunda

vivo apressada, mas não atropelo ninguém. no máximo, faço cara de quem comeu e não gostou. percebem, despisto. mentira. não troco por nada o coração entre os dentes por atos pensados. nunca fui boa em cálculos. como medir as consequências?

quinta

me assusta o preço de quatro pães, as cinco palavras por dizer, que era certo, eu diria. me preocupa como agora elas saírão, porque vão, mas de que forma, em qual estado, matéria. me assusta ter que nomear, por exemplo, o suor frio. a tremura na voz. o repente. o choque. a saída da padaria.

quarta

stela do patrocínio: louca. estamira: louca. você: indizível.
eu: fraude. corrompida. tardia. simulacro.

domingo

anda um bicho em mim. bernardo diria para respeitar as regras. finjo que aceito. na parte de dentro, percebo: não tem patas. noto: faz barulho. fica no meio do corpo. vou de uma cidade a outra com certo incômodo, entretanto resisto. não desço no meio do caminho nem morta. a ida me consome, mas a volta é que me mata. não interrompo mais nada, nem as viagens. deixo andar o bicho dentro de mim. depois é minha vez. vejo um cacho sobre a testa de marina. enxergo um meio de transporte.