gana

sinto uma fome enorme
sou capaz de comer tudo
do teto ao chão
na escada, em cima da máquina de lavar,
na pia da cozinha, até na cama
como você
de ladinho numa manhã
que se esquenta de laranja
bem aos poucos

pra fechar, pra abrir

foi no banheiro
sob a água fria
que bati a última
siririca
de dois mil & dezesseis
sentada na sua boca
seu nome explodindo
entre meus pés

o que fica

meus olhos não conseguem acompanhar
seus pés no meio dessa multidão, mas hoje eu sei que seu
corpo ocuparia todo o espaço da minha boca
como um bocejo a caminho da cama ou
como saliva lubrificando palavras caladas

noites não menos noites (para ana)

nada de novo
a não ser uma dor na costela
e a promessa de parar de fumar
o lixo de casa transborda
papel sobre papel
mas é por causa dos bichos
que eu corro essa última vez
vou para bem longe
mas ainda consigo ouvir
o farfalhar entre os mortos
interrompem minha ausência
sempre na mesma hora
triste rodeio de palavras
tudo bem
beleza não se guarda
horror de perder esse silêncio

poema para ana

lavar a roupa suja
e ainda encharcada
vesti-la
carregar no corpo
outros dizeres
desafiando sob o sol
a lei da gravidade

demoras

a verdade é que você não
pretende mais lavar os pratos

não quer ir à varanda
sentir o coração acelerar

nem pensa em vasculhar uns olhares
porque tem medo de dimensões

você usa palavras rápidas
a fim de adiar as descobertas

mas escora no tempo ao me mostrar
o que tem entre as pernas